Texto: Rodrigo Spuri – TNC Brasil
Povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais já respondem à crise climática na prática, muitas vezes sem reconhecimento, recursos ou políticas que acompanhem a urgência do problema. Leia mais na coluna da TNC Brasil para a GALILEU
A cada nova seca recorde na Amazônia, enchente devastadora no sul ou onda de calor que transborda as cidades, o Brasil confirma uma verdade incômoda: a adaptação tem se tornado cada vez necessária, junto com a mitigação das mudanças do clima, para a resiliência das comunidades, para a transição justa e para a manutenção das condições que sustentam a vida no planeta. Na COP30, realizada em Belém, o debate sobre adaptação ganhou destaque. Indicadores para a meta global de adaptação foram estabelecidos e o financiamento para essa agenda será triplicado em 2035. Agora, a questão central é como garantir que essa agenda seja conduzida com protagonismo dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, que estão na linha de frente da adaptação no Brasil.
O relatório evidencia que essas comunidades não são beneficiárias passivas, mas protagonistas de soluções que combinam mitigação e adaptação, exatamente o tipo de resposta integrada que o Acordo de Paris vem pedindo desde 2015. O estudo mostra que Amazônia e Cerrado, biomas fundamentais para a estabilidade do clima global, enfrentam impactos severos como escassez hídrica, perda de espécies essenciais, queimadas mais intensas e ciclos agrícolas cada vez mais imprevisíveis. Ainda assim, os territórios apresentam um arcabouço concreto de respostas. São iniciativas de adaptação lideradas localmente com soluções robustas que comprovam que há caminhos para a adaptação, que devem ser construídos com os povos e comunidades locais e tradicionais das nações mais vulneráveis, por meio de metas e ações claras e financiamento para apoiar a governança territorial, saber tradicional e cooperação.
Não por acaso, entre os principais achados do estudo é que a adaptação nasce do território, não do gabinete. A governança comunitária sustenta as respostas mais eficazes, como brigadas indígenas, acordos de pesca, sistemas agroflorestais e redes produtivas capazes de reagir com rapidez às mudanças que a crise impõe. Outro achado fundamental é que direitos territoriais são a primeira política de adaptação. Sem demarcação, segurança fundiária e proteção das áreas de uso comum, nenhuma iniciativa se sustenta no longo prazo. O estudo também destaca o papel das mulheres e dos jovens, que conduzem práticas agroecológicas, organização comunitária e transmissão de saberes. Por fim, evidencia-se um nó estrutural: o financiamento climático raramente chega a quem de fato produz adaptação. A burocracia é incompatível com a realidade local, e a maior parte dos recursos é desenhada para prazos anuais, enquanto a crise climática opera em ciclos longos.
Os casos reunidos pelo relatório mostram a potência dessas soluções. No Oiapoque, no Amapá, povos indígenas combinaram saber tradicional e ciência ao enfrentar pragas que afetavam a mandioca, desenvolvendo mudas mais resistentes e recuperando a produção, que é base da segurança alimentar local. Na Terra Indígena São Marcos, em Mato Grosso, mulheres Xavante lideraram a restauração de roças tradicionais, recuperaram sementes ancestrais e implementaram sistemas agroflorestais adaptados ao Cerrado, fortalecendo a segurança alimentar em um cenário de secas prolongadas. No Tapajós, no Pará, acordos de pesca, reflorestamento das margens e brigadas indígenas têm reduzido riscos de incêndios e preservado ecossistemas aquáticos, funcionando como um seguro climático diante das estiagens extremas. E na Terra do Meio, também no Pará, a rede comunitária evitou o colapso durante a quebra de safra de castanha do Pará, em 2024, coordenando estoques, renegociando contratos e garantindo renda, prova de que governança em rede se traduz diretamente em resiliência.
As recomendações do estudo convergem para uma mensagem clara: a adaptação climática no Brasil será territorial ou será insuficiente. Isso implica garantir direitos territoriais como base da adaptação, garantindo também ações de mitigação, como reconhecido em uma das decisões da COP30, estabelecer financiamento direto e plurianual para iniciativas conduzidas por comunidades, valorizar instituições locais e integrar políticas de alimentação, água, energia e financiamento às soluções já existentes. A COP30 mostrou a urgência ema tratar adaptação com a seriedade necessária, mas muito ainda precisa ser feito. O estudo da TNC Brasil revela que o país já possui soluções maduras, testadas e capazes de inspirar políticas públicas de escala nacional. O que falta não é inovação técnica, mas alinhamento político e financeiro com a força dos territórios.
Se a crise climática é global, a adaptação local é a chave para a resiliência. E é nas margens dos rios, nas roças regenerativas, nas brigadas indígenas e nas redes de cooperação que o Brasil está construindo, silenciosamente, algumas das respostas climáticas mais consistentes da próxima década.
Este artigo foi escrito por Rodrigo Spuri, Diretor de Conservação da TNC Brasil
