Povos Indígenas e o livro didático no Brasil: reflexões de futuras professoras

por Kerolen Nascimento Monteiro e Rafaela Souza Palmeira

 

Os livros cheios de figuras de um país grande, com plantações de cana-de-açúcar, muitas fábricas e toda gente satisfeita. Com o tempo percebi que quando você abre um desses livros, você vai aprendendo a visão de uma classe social, da elite brasileira. (…). Na verdade eu penso em uma escola que represente a realidade da vida, que fale da situação da comunidade, que fale que esta terra é nossa, que o branco não descobriu, mas invadiu. Tenho 45 anos, e somente agora que sou professor indígena da minha comunidade é que sei que Cabral não descobriu o Brasil, ele roubou. Algemiro da Silva – professor indígena Guarani (citado em COLLET, Célia; PALADINO, Mariana; RUSSO, Kelly, 2014, p. 2)

Através desta citação de abertura, gostaríamos de iniciar nossa escrita evidenciando toda a nossa solidariedade aos povos indígenas do Brasil, em relação ao sentimento de injustiça e de insatisfação sobre a forma como ainda são representados nos livros didáticos que são produzidos e levados para as salas de aula no Brasil. Acreditamos que a fala de Algemiro da Silva, primeiro professor Guarani no estado do Rio de Janeiro, representa a voz de muitos outros indígenas que são silenciados diariamente em nosso cotidiano, quando suas histórias são contadas pela visão do branco europeu.

Como professoras é importante refletirmos sobre nossas práticas de ensino constantemente, para que possamos agir como educadorxs éticos e políticos, questionando-nos se os recursos que utilizamos nas aulas de história dão espaço para compreensão de diversos modelos de organização social existentes no país. Para isso, fizemos um exercício: analisamos criticamente a maneira como a temática dos povos indígenas é representada em um livro didático bastante utilizado para o ensino de história e geografia, no quarto ano do ensino fundamental³.
O livro didático analisado, que possui conteúdos de história e geografia para o 4° ano do ensino fundamental, primeiro segmento foi publicado no ano de 2013, sendo relativamente recente, após a Lei 11645/2008 de dez de março de 2008, que garante a obrigatoriedade do ensino da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena” nos estabelecimentos de ensino fundamental e ensino médio, sejam eles públicos ou privados.
Portanto, nesse texto mostramos aspectos importantes que encontramos sobre a maneira como os povos indígenas são representados no livro didático escolhido, a fim de verificar como a Lei 11645/2008 vem sendo implementada na prática. Em seguida, evidenciamos alguns equívocos que identificamos que estão presentes nesse livro, que reforçam o senso comum em relação a esses povos. Por fim, buscamos pensar possíveis estratégias e atividades para proporcionar aulas críticas a respeito da temática indígena na atualidade, sem a intenção de esgotar um tema tão complexo, mas em busca de fazer a diferença como profissionais da educação comprometidas com o ato de ensinar.

Aspectos importantes sobre o livro didático escolhido

O livro didático analisado possui 104 páginas, havendo uma divisão: na primeira parte (cerca de 34 páginas) são apresentados conteúdos de história, abordando temas como a história do Brasil começando pela chegada dos portugueses (que é apresentada de maneira pacífica e como uma descoberta) até a Proclamação da República. E na segunda parte, com cerca de 65 páginas, são apresentados conteúdos de geografia, levantando questões como nacionalidade, identidade brasileira, espaços geográficos e paisagens, formas de consumo, etc.
Em todo o livro, identificamos que os povos indígenas são mencionados poucas vezes, de maneira generalizada e superficial, sem se referir nem mesmo por seus nomes. As imagens reforçam estereótipos, como por exemplo, a figura que mostra Pedro Álvares Cabral dialogando pacificamente com alguns indígenas em 1500, “descobrindo” o Brasil e passando a ser “dono do nosso país”.
Nas páginas seguintes, podemos perceber que apesar de falar sobre a cultura indígena e organização social desses povos, reconhecendo-os como primeiros habitantes do Brasil, eles são representados através de estereótipos, sem especificar quantos povos indígenas habitavam no Brasil e ainda habitam atualmente, quantas línguas falavam e ainda falam e as diferenças culturais de um povo para outro.
Inclusive, há uma parte que diz que “os indígenas moram em ocas amplas” (Livro didático de história e geografia “Caderno do Futuro, simples e prático”. Pág.11) e que eles são constituídos por tribos, uma visão equivocada, uma vez que existem diferentes tipos de moradia nas aldeias indígenas, variando de povo para povo e só são considerados como tribos os indígenas que são nômades.
Além disso, é falado também que “os indígenas enfeitam o corpo com penas coloridas, dentes de animais e pinturas” (Livro didático de história e geografia “Caderno do Futuro, simples e prático”. Pág.11), desvalorizando a diversidade étnica e cultural entre os vários povos que existem e suas relações com suas divindades espirituais ou com a arte, uma vez que alguns povos fazem isso em momentos específicos, e não apenas se “enfeitam” como se fosse uma fantasia de carnaval.
Esse pensamento só reforça o que acontece frequentemente em diversas escolas brasileiras, nas quais pouco se aborda no currículo sobre os povos indígenas ao longo do ano letivo e quando chega o Dia do Índio os professores pintam seus alunos e colocam penas, em vez de construir com eles o conhecimento sobre a diversidade étnica e cultural desses povos.
Também podemos observar que se fala a respeito das datas comemorativas e o Dia do Índio é mencionado. O texto diz que “Atualmente, os indígenas têm direito a uma educação especial que valorize sua história, tradições, costumes e hábitos. Essa é uma maneira de respeitar e preservar a cultura deles.” (Livro didático de história e geografia “Caderno do Futuro, simples e prático”. Pág.33) O que de fato é muito pertinente, entretanto, se trata de uma fala contraditória depois que se analisa criticamente o conteúdo ao qual os estudantes do ensino fundamental de escolas regulares de ensino terão acesso através desse livro didático.
Mesmo que esteja se referindo a educação que é proporcionada aos indígenas nas aldeias, respeitando suas especificidades, ainda sim, nos faz pensar que o respeito e preservação das culturas desses povos deveriam acontecer em todas as escolas em âmbito nacional, não de maneira isolada.
Também encontramos no livro o tema da formação do povo brasileiro e a contribuição dos povos indígenas, no entanto, essas afirmações são superficiais e reforçam a falsa ideia de que “Os costumes herdados do indígena, do branco e do negro marcaram a maneira de ser do povo brasileiro.” Mas enquanto o livro mostra páginas e páginas do que seria a herança do branco europeu, sobre as contribuições herdadas pelos indígenas encontramos apenas: o vocabulário, alguns instrumentos musicais, ervas medicinais, rede e folclore.
O que devemos nos questionar é: que tipo de currículo está sendo pensado para os alunos nas escolas brasileiras? Com que intencionalidade? A quem interessa que a visão sobre os povos indígenas seja difundida de maneira generalizada? Um livro didático deveria reproduzir tantos equívocos sobre os povos indígenas? São muitas questões que precisam ser pensadas e revistas por profissionais da educação que estejam comprometidos de verdade com a formação de seus alunos, levando em consideração a responsabilidade de construir sujeitos autônomos e críticos que enxerguem as injustiças que existem em nossa sociedade.
Alguns equívocos presentes no livro didático escolhido: A reprodução do senso comum

        Diante de tais análises realizadas, podemos enxergar mais a fundo a problemática exposta de que esse livro didático utilizado em sala de aula e que deveria apresentar uma visão crítica e realista das demandas e situação contemporânea dos povos indígenas, acaba contribuindo de maneira totalmente contrária, reproduzindo o senso comum. 
    Identificamos assim, ao menos dois equívocos presentes no livro didático que gostaríamos de destacar claramente, com base no artigo “Cinco ideias equivocadas sobre os índios” do professor José Ribamar Bessa Freire.
   Infelizmente o livro didático escolhido para análise reforça o estereótipo de que os povos indígenas constituem um bloco único, e não deixa claro que a cultura indígena é diferenciada, com diversas línguas, etnias, arte etc. Além disso, ao ressaltar a imagem do índio como povos que enfeitam o corpo com penas coloridas e dentes de animais, acaba por fortalecer o terceiro equívoco, que o professor Bessa Freire chama de congelamento de cultura.
        Sabemos que vivemos em um momento que muitas informações são postadas a todo momento nas redes sociais e o acúmulo de fake news só cresce, inclusive por parte do atual governo que se posiciona totalmente contra esses povos que sofrem constantemente com a marginalização de suas identidades. Afinal, o que é ser índio atualmente? 
        Se tirarmos nosso olhar preconceituoso, poderemos vislumbrar que ser indígena atualmente é fazer parte de um povo que luta por seus direitos, que é resiliente e se adapta às influências culturais e que sobrevive acima de tudo, sem perder a preservação de sua identidade. Cada povo indígena encontra seus mecanismos de defesa para conseguir continuar existindo. 
        Portanto, ser indígena não é ser “selvagem”, não significa ser “primitivo” ou "sem civilização”, eles não vivem no passado, fazem parte do nosso presente e possuem identidades culturais específicas que devem ser respeitadas. Só no estado do Rio de Janeiro existem aldeias nos municípios de Angra dos Reis, Paraty e Niterói, além dos indígenas que vivem nas áreas urbanas. 
        Inclusive, a nossa atual constituição no artigo 231 aponta que “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.” Por isso, essa garantia de direitos não deve ficar presa apenas ao papel, sendo essencial pensarmos em estratégias para proporcionar aulas críticas a respeito da temática indígena. 

Possíveis estratégias e atividades para proporcionar aulas críticas a respeito da temática indígena na atualidade

 Com a intenção de desconstruir os estereótipos e equívocos encontrados no livro didático escolhido para análise, pensamos em possíveis estratégias ou atividades que poderiam ser realizadas em sala de aula com os alunos do 4° ano do ensino fundamental. 

Um recurso interessante seria mostrar para os alunos o site “Socioambiental”, que fala um pouco dos diversos povos indígenas que vivem no Brasil, a fim de mostrar a diversidade existente em nosso país e através dele realizar uma atividade em grupo, na qual os alunos teriam que pesquisar e apresentar um povo indígena contando as especificidades de sua cultura e depois confeccionar um mural ou um livro coletivo com as pesquisas encontradas.
Outra estratégia interessante seria pensar em jogos didáticos que podem ser facilmente confeccionados usando a criatividade e materiais acessíveis junto com a turma, tornando assim um conteúdo de história indígena mais próximo e interessante para os alunos aprenderem, como um quebra cabeça, dominó, em que os alunos poderão levar até mesmo para suas casas e brincar com suas famílias ou amigos, tornando essa temática acessível de diferentes formas fora do espaço escolar também.
Durante nossas pesquisas identificamos um site muito interessante que possibilita criar histórias em quadrinhos digitais, o “Storyboard That”, essa ferramenta poderia ser utilizada com os alunos após eles aprenderam determinado conteúdo a fim de fixar ainda mais a aprendizagem, tornando um exemplo prático de exercício no qual eles poderão desenvolver a criatividade, podendo ser uma atividade interdisciplinar, envolvendo as disciplinas de história, português, artes, etc.
Os recursos que poderíamos utilizar para romper com a história indígena contada por uma visão eurocêntrica, somente após a chegada dos portugueses ao Brasil, seriam os livros paradidáticos. Um exemplo para auxiliar nessa proposta seria o livro “Maino’i Rapé” que conta a história dos povos Guarani de maneira bem ilustrativa e didática.
Encontramos também um site com materiais didáticos sobre a temática indígena com jogos e propostas de atividades excelentes para enriquecer os planejamentos de nossas aulas, a fim de esclarecer aos alunos como os povos Guarani resistem durante todos esses anos às opressões que vivem e como lutam por suas terras e pela valorização de sua cultura, que seria: https://comin.org.br/publicacao/pindoty-irapua-e-guapoy-tres-comunidades-guarani-mbya-lutando-pela-terra/#.
As propostas metodológicas disponibilizadas neste site nos ajudam a pensar possibilidades de tornar as aulas mais didáticas e próximas das crianças para que elas conheçam três comunidades Guarani Mbya do Sul do Brasil, “Pindoty, Irapuá e Guapoy”. Compreendendo dessa forma também a relação de proximidade e respeito que os povos Guarani possuem com a natureza, fazendo-os enxergar com um novo olhar algumas questões da nossa sociedade. Esses materiais podem nos auxiliar e nos guiar para tornar esses conteúdos acessíveis aos alunos durante todo o ano letivo e de maneira interdisciplinar.
Ademais, a fim de desconstruir o equívoco da cultura congelada, sugerimos o vídeo “História: Como vivem os índios na atualidade”, do canal Professora Adria Priscila, que pode ser usado de diferentes formas em sala de aula, contendo uma visão bem diferenciada sobre como vivem os povos indígenas no Brasil nos dias de hoje.
Dessa maneira, podemos entender que existem muitos recursos que podem ser utilizados para construir junto aos alunos um conhecimento rico acerca dos povos indígenas, reconhecendo assim, que por mais que tenhamos um longo caminho pela frente para tornar nossa educação antirracista, devido a problemas estruturais da nossa sociedade e também de nossa formação pedagógica, podemos buscar estar em constante aprendizagem e desenvolver novas maneiras mais apropriadas de ensinar aos nossos alunos sobre a grande diversidade e importância dos povos indígenas, seja no passado de nossa história ou no nosso presente.

Referências Bibliográficas citadas no texto
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em em 5 de outubro de 1988. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1990.
COLLET, Célia; PALADINO, Mariana; RUSSO, Kelly. Quebrando preconceitos: subsídios para o ensino das culturas e histórias dos povos indígenas. Rio de Janeiro: Contracapa Livraria; Laced, 2014. 110p. : il. (Série Traçados, v. 3)
Digital Storytelling. Disponível em: https://www.storyboardthat.com/. Acesso em: 06 out. 2021.
FREIRE, J.R. Bessa. Cinco ideias equivocadas sobre o índio. In Revista do Centro de Estudos do Comportamento Humano (CENESCH). Nº 01 – Setembro 2000. P.17-33. Manaus-Amazonas.
Maino’i’ rape, 2009.
PASSOS, Célia Maria Costa; SILVA, Zeneide Albuquerque Inocêncio da. História e geografia: 4º ano – 3. ed.- São Paulo : IBEP, 2012. il. ; 28 cm. (Novo caderno do futuro, simples e prático).
Pindoty, Irapuá e Guapoy: Três comunidades Guarani Mbya lutando pela Terra. O Conselho de Missão entre Povos Indígenas (COMIN), 2018. Disponível em: https://comin.org.br/publicacao/pindoty-irapua-e-guapoy-tres-comunidades-guarani-mbya-lutando-pela-terra/#. Acesso em: 17 jan. 2022.
PRISCILA, Adria. História: Como vivem os índios na atualidade. abr.2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bo2P1VDc240. Acesso em: 06 out. 2021.
Povos indígenas no Brasil. Instituto Socioambiental. Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/P%C3%A1gina_principal. Acesso em: 06 out. 2021.

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