Indígenas publicam dicionários das línguas Maraguá, Nheengatu e Sateré

Texto: Site AmazONAmazonia

    Imagem: Yaguarê Yamã, do povo Maraguá. Foto. Arquivo Pessoal

    Professores, pesquisadores e demais interessados em conhecer e divulgar as línguas indígenas da Amazônia já podem contar com o auxílio de três dicionários elaborados por escritores indígenas: Dicionário e Estudo da Língua Maraguá, de Yaguarê Yamã, Elias Yaguakâg e Uziel Guaynê; Dicionário de Nheengatu Tradicionala Língua Geral da Amazônia, de Yaguarê Yamã, Elias Yaguakãg, Egídia Reis e Mário José; e Dicionário da Língua Sateré (Sateré Pusu Ackukag), de Yaguarê Yamã e Aldamir Sateré.

    Os três livros foram publicados pela Editora Cintra, com sede em São Paulo.

    A ideia de produzir os dicionários surgiu do escritor Yaguare Yamã, falante de quatro idiomas indígenas, e de Elias Yaguakãg, quando começaram a organizar o dicionário da língua maraguá, uma língua ameaçada de extinção. O tronco da língua maraguá é o arawak.

    Contatou-se, de imediato, que outros povos passavam pelo mesmo problema dos Maraguá, inclusive nas aldeias: o abandono das línguas-mães pelo português e outras línguas colonizadoras. “Na nossa aldeia, poucos velhos falavam maraguá e isso os deixava muito tristes”, revela Yaguarê.

      Imagem: Dicionário de Estudos de Nheengatu/ Reprodução: site AmazONAmazonia

       

      Confira a entrevista com um dos autores, professor de Geografia da rede estadual de ensino Yaguarê Yamã:

      De onde vem a ideia de elaborar esses dicionários?

      Nosso objetivo é a divulgação e valorização das línguas indígenas. Daí o motivo de, inicialmente, trabalhamos como o dicionário maraguá, o primeiro dos três.

      Daí tive a ideia de fazer um estudo mais aprofundado com os últimos falantes. Como são geralmente velhos, convidei alguns professores entre eles, o Uziel Guanyne e o Elias Yaguakãg, para visitar essas pessoas e juntos começamos a elaborar um dicionário.

      E qual foi o tempo necessário para ficar pronta a obra?  

      Demorou mais de cinco anos nossos estudos. Tivemos dificuldades, inclusive, de separar as línguas, já que vivemos em uma região multilíngue.  Quando ficou pronto, oferecemos a uma editora amiga, a Editora Cintra, que, prontamente, aceitou fazer a publicação.

      E como foi o processo de concepção e realização dos outros dois dicionários?

      Depois de publicar o primeiro dicionário, eu e o Elias Yaguakãg, também falante da língua Nheengatu, resolvemos formar uma nova equipe, dessa vez para a organização de um dicionário da língua Nheengatu ou Língua Geral da Amazônia. Como é uma língua mais conhecida e prática, tivemos menos dificuldade e, em menos de um ano, concluímos essa tarefa. Assim, surgiu o segundo dicionário, o dicionário da língua nheengatu aprovado pelo Conselho da Semed Indígena, em nova Olinda do Norte

      Os dicionários são um avanço para o ensino da língua indígena…

      A literatura indígena está hoje em outro patamar. Dos contos infantis, passou a ser, também, literatura técnica. Originalmente, nós, os autores, somos escritores de contos infantis e juvenis; logo enveredamos para a literatura fantástica e, em três anos, conseguimos escrever e publicar três dicionários de línguas indígenas. Essas obras estão no mercado literário com troféus para povo o brasileiro que acredita em um Brasil mais nativista.

      E qual é o resultado desse esforço?

      A língua maraguá por muito tempo esteve próxima da extinção. Quando eu e meus parceiros (também professores indígenas) resolvemos salvá-la, criamos uma história linda de sobrevivência. O Dicionário Maraguá, por exemplo, é usado por professores indígenas na sala de aula e, assim, revitaliza a língua entre as crianças e adultos. Hoje, são mais de vinte falantes de maraguá, e isso quer dizer muita coisa quando se trata de uma língua que estava perto da extinção.

      Na aldeia, hoje em dia, os avós falam com seus netos a mesma língua. Só isso, já é um grande feito.

      Neste ano, para fechar o ciclo dessa atividade, convidei o capitão geral do povo Sateré Mawé, o Aldamir Sateré, que topou trabalhar no Dicionário Sateré. Esse imagino que foi menos dificultoso.

        Imagem: Professores indígenas que participaram da elaboração dos dicionários. Foto/Divulgação

        E essa mobilização para fazer os dicionários começou quando?

        Ao menos há cinquenta anos devido ao desinteresse das autoridades. O próprio povo está esquecendo as línguas. Eu tive o privilégio de ter nascido numa época de pouca influência televisiva. Numa aldeia onde se falava quatro línguas, aprendi todas. Daí a importância de mantê-las em evidência, inclusive, com a publicação de livros e dicionários.

        Mas sabendo desses três primeiros, com certeza outros intelectuais indígenas poderão seguir o exemplo

        Como estão as suas aulas online de Nheengatu?

        Ministro aulas e cursos de Nheengatu há dois anos. Tenho meu próprio grupo de watzap, pelo qual tiro dúvidas de estudantes de todo o Brasil. Instituições de São Paulo têm procurado para ministrar cursos online, os quais, geralmente, realizo em razão da pandemia. Esse tipo de curso tem aumentado bastante.

        Em setembro irei ministrar aulas em Coari (AM), para professores indígenas que me contrataram. Como a língua nheengatu está em ascensão, muitas comunidades educacionais têm me procurando para ensinar. Em outubro irei ministrar aulas, dessa vez pela prefeitura de Santarém (PA) e pelo Conselho de Professores Índígenas de Alter do Chão, no rio Tapajós. Como disse, há mais de cinco anos vejo que essa mobilização é necessária.

        Há então uma demanda de professores com qualificação nessa área?

        A maioria dos que faz cursos é não indígenas. O Nheengatu e uma língua ensinada na USP [Universidade de São Paulo]. O curso de Nheengatu é muito procurado, mas nem sempre há vagas. A língua Nheengatu parece ser mais valorizada em outras regiões do Brasil que na Amazônia, a sua própria casa.

        Dá para estimar o número de falantes de Nheengatu?

        Sim. Mais de 39 mil falantes por todo o Brasil. A maioria, claro, falantes nativos na Amazônia, basicamente na bacia do rio Negro, do Baixo Amazonas e do rio Tapajós. No total, estima-se que são mais de 20 povos indígenas falantes, alguns desses reaprendendo a língua, outros tem ela como língua nacional. Além dos nativos, muitos são os que procuram aprender, principalmente de fora da Amazônia, em São Paulo e Nordeste. Pelo fato de ser uma língua com curso oferecido pela USP, muita gente nos procura para aprender mais ainda.

         

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        Rodrigo Martins

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