Conheça o ABECEDÁRIO DAS CRIANÇAS POR FONTES INDÍGENAS

Texto: Pablo das Oliveiras (professor Especialista no Ensino de Arte, no Ensino Fundamental 1, pela Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro)

 

      Imagem: ABECEDÁRIO DAS CRIANÇAS POR FONTES INDÍGENAS. Acervo: Pablo das Oliveiras

      ABECEDÁRIO DAS CRIANÇAS POR FONTES INDÍGENAS é o resultado da primeira fase do trabalho pedagógico em artes visuais, com foco na alfabetização nas linguagens do desenho e da escrita, junto às crianças das turmas do 1°, 2° e 3° anos, do
      Ensino Fundamental / EF 1, na Escola Municipal Lopes Trovão, com base na Lei 11.645/2008 e em perspectiva de abordar a História e culturas indígenas.

      A E. M. Lopes Trovão (Itanhangá /Barra) atende as crianças oriundas do território estendido ao longo da Estrada de Jacarepaguá, Estrada do Itanhangá e adjacência, em 14 turmas, em dois turnos, sendo: 04 turmas de Educação Infantil – EI e 10 turmas – EF1, nas quais, o ensino da Arte consta como componente curricular.

      Nossa escola encontra-se localizada entre os muitos bairros do Rio de Janeiro nomeados pelos indígenas tupinambás, e os maracajás, cujo “falares” tupi- guarani são derivados do tronco linguístico Tupi. No atual bairro do Itanhangá/espírito terrível, uma imensa e vistosa Pedra se debruça num trecho à margem da tyîuk/lago fedorento, atual Lagoa da Tijuca. A nomeação primeira foi entendida à região e ao Maciço que por ela se eleva. O caminho aberto e percorrido pelos históricos tupinambá está na base da Estrada do Itanhangá, que liga a Baixada de Jacarepaguá: îakaré-paba-kûá/jacaré das lagoas rasas ao mar (Barra da Tijuca).

      A natureza observada pelos indígenas e os sentidos a ela atribuídos ao nomearem esses e outros territórios permanecem dialogando conosco; em mim instiga uma “curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca” dos saberes indígenas; à sua civilização erguida no convívio com o mundo da floresta e aos seus saberes construídos em contexto urbano. Entre esses territórios os indígenas ainda permanecem sendo confrontados, desde os primeiros contatos com os colonizadores e seu implacável projeto civilizatório ocidental.

      Os povos indígenas sobrevivem desenvolvendo estratégias de resistência para manter as suas línguas, ciências, culturas e costume; noutro desafio constroem movimentos de retomadas, do que foi invisibilizado e dado como extintos, buscando reordenar a trajetória de seus povos, também por aquilo, que muitas vezes sem saber, nossas falas mantém viva na Língua, na alimentação, na medicina e festejos populares, que se mantém vivo na toponímia das cidades, como o sangue nossas veias.

      De forma geral, o ABECEDÁRIO busca colaborar junto aos processos de alfabetização das crianças, a partir de atividades práticas do desenho e da escrita: justapondo umas poucas palavras em português e tupi-guarani, uma pequena descrição
      para formar os verbetes, lindamente enriquecidos pelos desenhos das crianças. A questão bilíngue desdobra-se entre as páginas do ABECEDÁRIO numa meta narrativa, com personagens interconectados à Fábula: DE LÁ PRA CÁ… DAQUI PRA ONDE, uma trama que aborda marcadores de etnicidade, num conjunto de dez contos gravados em áudios, para desdobrar as atividades do projeto juntos às crianças da escola.

      Pretende-se nesse segundo projeto de artes visuais, reutilizar a didática de contação de estórias por áudio, como realizado em 2021, no trabalho com a fábula: A CAVERNA DA INTERNET (2021), quando abordamos o evento do afastamento escolar e usos das redes sociais na pandemia, em 10 contos: áudios gravados pela Profª Maria de Lourdes Silva (UERJ/EDU), cuja expressão vocal, o ritmo, a emoção, a inteligência, de tal forma inflou de alma as personagens, em particular a personagem Bebel e ambas proporcionaram à trama da fábula uma verossimilhança, que aguçou nas crianças tanto o imaginário como o reconhecimento de situações reais no cotidiano.

      O BECEDÁRIO nas mãos das crianças é uma singela colaboração às ações de resistências dos povos indígenas, em lutas constantes para romper com o estado de inseguranças e de extermínio, seja no campo simbólico aos corpos indígenas; em especial a retomada que ocorre no coração da cidade do Rio de Janeiro (bairro Maracanã), onde fora o histórico território “Jabebiracica, sem dúvida, uma das mais importantes tabas tupinambás da Guanabara” 3, hoje, a Aldeia Pluriétnica Marakà’ná, reafirmando junto à luta por direitos constitucionais e de territorialidade indígena, em defesa de uma Universidade Pluriétinica, num diálogo entre as culturas dos povos originários de Pindorama e as culturas urbanas.

      Acesse o ABECEDÁRIO clicando aqui

      Confira a versão em pdf dessa introdução do professor Pablo das Oliveiras clicando aqui

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      Rodrigo Martins

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