Texto: Laboratório Ateliê de História Indígena e Minorias (LABHIM)
Quando pensamos nas grandes obras do Rio de Janeiro colonial, raramente lembramos dos povos indígenas. O que sabemos sobre os nativos habitantes dessas terras quase nunca nos remete ao trabalho de construção de espaços dessa cidade, pois historicamente somos ensinados a pensar no indígena como “preguiçoso”. Porém, isso não é verdade. O caso dos Arcos da Lapa (originalmente chamado de Aqueduto da Carioca), por exemplo, nos lembra de uma história que tentaram apagar: a dos trabalhadores indígenas, fundamentais para a construção da primeira grande infraestrutura da cidade — onde coexistiram livres pobres, negros escravizados, libertos, caboclos, mulatos e trabalhadores forçados.
Formada entre o mar e os morros e numa região com muitos manguezais, lagoas e pântanos, a cidade do Rio de Janeiro cresceu enfrentando problemas, como os alagamentos de algumas regiões. Na época, era necessário a construção de um sistema de abastecimento que garantisse água potável para a população. Foi nesse contexto que o Aqueduto da Carioca foi projetado e construído.
As obras foram iniciadas em 1719, a partir da canalização das nascentes do Rio Carioca, e terminaram em 1750, ano de sua inauguração. A construção do Aqueduto ligava o morro do Desterro (Santa Teresa) ao morro de Santo Antônio, transportando água até o Convento de Santo Antônio, localizado no atual Largo da Carioca. A partir do crescimento urbano da cidade do Rio de Janeiro e da canalização de outros rios, a função do Aqueduto tornou-se ultrapassada. Isso fez com que ele deixasse de ser usado como aqueduto e tornasse um viaduto para bondes, facilitando o acesso a Santa Teresa.
No século XVIII, os indígenas aldeados no Rio de Janeiro — muitos deles sobreviventes de povos como Puri, Coroado e Coropó — foram recrutados compulsoriamente para obras públicas através do sistema de repartição. Esse mecanismo, herdado do período colonial, permitia que autoridades e colonos “alugassem” indígenas catequizados para serviços pesados, como a abertura de estradas, a construção de fortalezas e, claro, o Aqueduto da Carioca.